domingo, 22 de fevereiro de 2009

Sobre Performance




*Fotos: Performance: "Sobre o Amor" **
** Desfecho do espetáculo teatral: "Sobre o Amor - Procedimentos, Movimentos e Representações" / Grupo Trupicão Cia. de Teatro. ***
***Fotógrafo: Luiz Eduardo Carneiro.
O QUE É PERFORMANCE?


A performance tem suas primeiras matrizes, no conceito de antiarte que vieram de outros movimentos, como o dadaísmo, colage, live art, o happening, a body art, os environments; estes movimentos tinham como foco, a busca de uma liberdade de expressão no qual, seu instrumento de trabalho era o corpo, a presença humana e sua ação. O contato direto, e o impacto que o trabalho sugeriria ao público, vendo ações corriqueiras sendo executadas e observadas em vídeo ou ao vivo, estas eram algumas das propostas das perfomances surgidas nos anos 60 em New York.
O titulo performance tem sua origem no latim per-formare, siginificando realizar, ele é introduzido no inlgês com origem no francês antigo parformance[1]. E foi Oldenburg, que utilizou titulo em um evento organizado por Kaprow[2] ainda em 1959,
Performance ou performance art, expressão que poderia ser traduzida por teatro das artes visuais, surgiu nos anos sessenta (não é fácil distingui-lo do happening, e é influenciada pelas obras do compositor John CAGE, do coreógrafo Merce CUNNINGHAM, do videomaker NAME June Park, do escritor Allan KAPROW). Ela chega à maturidade somente nos anos oitenta. (Pavis, 1999: 284)

A performance associa: idéias, artes visuais, teatro, dança, musica, vídeo, poesia e cinema. Sua execução não se restringe a casas de espetáculos, mas se realiza em qualquer outro ambiente apropriado para sua execução. Trata-se de um “discurso caleidoscópio multitemático “(A. WIRTH)” (Pavis, 1999: 284).
Enfatiza-se o processo e a noção de abertura da obra, onde a efemeridade e o inacabamento da produção, mais do que a obra de arte representada e acabada, conferem valor àquilo que é apresentado e/ou documentado. O performer não tem que ser um ator desempenhando um papel, mas é um tipo mais geral de operador de signos; sucessivamente, recitante, pintor, dançarino e, em razão da insistência sobre sua presença física, um autobiógrafo cênico e/ou plástico, que possui uma relação direta com os objetos e com a situação de enunciação. Na performance em alguns casos, perde-se a densidade do significado do signo e se conserva apenas o significante.

“ O performer atua como um observador. Na realidade, ele observa sua própria produção, ocupando o duplo papel de protagonista e receptor do enunciado (a performance). Isso porque para a conversão do objeto em signo exige-se que quem o utilize simultaneamente o observe, a fim de provocar no espectador, mediante a recodificação, uma atitude similar: a expectativa. O mecanismo da mimesis, substituído ao nível da performance, é transportado, assim para o publico.”(Glusberg,1987: 76.)

Quando pensamos em produzir algo como performance, vem em nossa mente: qual o objeto desse produzir?
Imagens, sons, cores luzes assolam nossas idéias combinado num misto de ansiedade e realização.
Experimentamos gestos, falas e ações mutiladoras, e, ao final, temos o que podemos produzir de melhor, ou estranhamento do público, diante da performance realizada naquele momento ou evento singular ou não.
Percebemos então que a informação transmitida pela performance pode nos dar uma maior abertura para sua interpretação. Na performance, qualquer informação, ou conhecimento alheio, empíricos ou não, podem nos pertencer a partir do momento em que nos apropriamos, ou buscamos conhece-los melhor. Que o ser humano, é o único ser vivo que “performa”, um para o outro no seu dia a dia. Pensando dessa forma, a criação inédita nas artes, independente da área torna-se quase impossível. Torna-se então, uma nova edição ou formato, do que já foi pesquisado ou criado. O que fica de fato é a essência, o “significante” do conhecimento que adquirimos, durante nossas vidas de estudos - aqui no caso em arte da performance - ou não.
Uma atitude ou movimento, só nos é estranho ou inaceitável, devido à falta de conhecimento de causa, na pior das hipóteses e talvez a mais certa, por puro preconceito daquilo que, não faz parte do que foi herdado social e intelectualmente. A performance busca descontruir as convenções, transformando-as em outra linguagem de signos, sem perdre seu contexto com a esfera do cotidiano. Caso contrário, estaríamos no lugar do teatro - e das artes em geral – quase sempre, encontram seu estado de fruição na esfera do extra cotidiano. A fronteira entre a arte e a vida se mistura. Será que queremos de fato essa quebra ou busca pelo desconhecido, estranho ou marginal que a performance criou ainda nos seus primeiros eventos?
Até que ponto, o grande conhecimento artístico, é realmente funcional, será que estamos preparados, para uma nova forma de expressão das artes?
De que vale esse conhecimento adquirido em artes, sem colocá-lo em prática ou experiênciá-lo de fato em performance, ou, em qualquer outra área?

- EXEMPLOS:

· Um maestro, talvez nunca saiba ou conheça a Engenharia-nesse caso obras arquitetônicas-, estude ou ouça músicas de Hip Hop para a criação de uma ópera ou musical. Como podemos notar são linhas da música, que nada tem a haver uma com a outra.
· Um ator, talvez nunca entre num chiqueiro de porcos para castrá-los ou em um curral para ordenhar uma vaca. Pois sendo o ator capaz de interpretar diversos personagens ele poderá um dia estar na situação de vaqueiro/peão.

Essas ações performáticas nos parecem simples e bem próximas da função de ambos, no entanto estranha ou distante a ambos. Porém sem eles o mundo talvez não fosse assim, talvez existissem outras ações performadoras que as suplantassem e mesmo assim ambos estão realizando performances individuais dentro de suas funções. “Se tornou difícil estarmos seguros onde uma ação termina e uma performance começa.”(Villar, 2003:72)
Nossas escolhas são nossas ou o mundo que nos conduz à elas?
E ficamos assim abnegados a seguir um caminho que não nos completa, e continuamos por ele absorto de nossas necessidades coisa que a performance quer transgredir. Uma das formas encontradas pela performance para transgredir o convencional, e sair da linha que o teatro esta inserido, foi não ter evidente o espaço cênico, o público é parte do evento seja atuando de forma espontânea ou assistente.
“O teatro enquanto arte do simbólico se alicerça na convenção.”(Cohen, 1997: 127). Enquanto o teatro está voltado para o entretenimento, onde platéia e palco têm seus espaços limitados e os espetáculos têm um tempo de duração maior que das performances. Buscando uma saída da convenção cênica, estas utilizam apenas um foco, e vários meios de informação e instrumentos para que o público não se perca e possa refletir com mais rapidez o tema ou o questionamento colocado pelo performer".
[1]Cf. Glusberg, Jorge. A arte da performance, cit. Pág. 72-73.
[2] Ibid. pág. 33.
Robson Parente
Atuante/Grupo Trupicão Cia. de Teatro

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Conceituando Vanguarda No Teatro


Conceituando Vanguarda no Teatro

Por: Sandro Freitas




· Originalmente, o termo vanguarda designava uma estratégia militar. As vanguardas definiam uma preponderante função destrutiva: romper frentes, destroçar infra-estruturas, bater retaguardas, desarticular e inutilizar as formas de subsistência do inimigo. Esse conceito militar de vanguarda designava uma dissolução geral de tudo quanto fora sólido em proveito de um principio arcaico de violência e poder. Seus meios eram a surpresa, a rapidez, a eficácia, a universalidade ou a economia de suas estratégias. Um carisma heróico inflamava suas aventuras de “antenas da tropa”. A destruição vanguardista expressou sempre a virtude exemplar de um originário princípio constituinte de poder.
A identificação da criação artística com a estratégia militar não é somente exterior: não é uma metáfora casual das vanguardas históricas que, num dado momento, pôde surpreender Baudelaire pelo inusitado da questão, esse significado militar compreende um valor básico das próprias vanguardas artísticas: seu caráter destrutivo, a concepção niilista do mundo, a visão providencialista da história, a pretensão absoluta da ordem, das normas estéticas e sociais, e também do poder.

· Sintonizadas com os avatares da estratégia militar e do projeto militar revolucionário, as vanguardas artísticas foram atravessadas pelas mesmas ambivalências: espírito de aventura e experimentação, mas também um caráter destrutivo e um objetivo de ocupação e colonização culturais, vontade de transformação e progresso, e ao mesmo tempo definição de um poder carismático e total, uma atitude critica e revolucionária, mas ao mesmo tempo o princípio legitimador de um novo sistema globalizador de dominação.
· O teatro de vanguarda é um adolescente teimoso, mas é avô, mais velho que o nosso século, e vem se renovando com um rigor impressionante desde seu berço, desde a estréia, a 9 de dezembro de 1896, do Ubu-Rei de Alfred Jarry, em uma noite Parisiense que se impôs como um dos grandes escândalos da história do teatro moderno.
· O teatro de vanguarda, assim como tantos outros aspectos da cultura contemporânea, encontra no romantismo o seu início.
· Não existem, por exemplo, coordenadas que permitam dar certa unidade à linguagem do teatro de vanguarda. Se em alguns autores encontramos a busca de uma linguagem poética, outros vão além de um linguajar banal e mesmo anti-poético; um terceiro grupo atomiza destruidoramente a linguagem, e não faltam autores que combinam diversos desses processos. O mesmo pode ser dito do tratamento das personagens, da construção cênica, das relações espacio-temporais, da reversibilidade ou respeito a categorias como o trágico e o cômico, e assim por diante.
· O dramaturgo do teatro de vanguarda, arvorando-se em destruidor do mundo, cria, por outro lado, a partir de convenções que são o produto exclusivo de sua própria lavra; as suas personagens movem-se em um mundo completamente estranho à mentalidade normal.
· Se sua linguagem se torna caótica, esse caos não é apenas o índice de uma civilização já cansada de seus próprios meios, mas é também o regresso de uma forma primitiva de linguagem. Origem e fim coincidem, pois, como o zero do qual tudo emana e para o qual tudo retorna. Situado no ponto zero ou no infinito, o homem pode, enfim, construir o seu mundo original.
· O teatro de vanguarda não pode ser considerado como o produto de uma corrente negra entre outras correntes brancas ou cor de rosa, mas como a expressão de um todo cultural, de uma situação histórica, em que cada aspecto reflete a totalidade do conjunto.
*FOTO: Cena do espetáculo: "A Quase Dor de uma Intensa Alegria" - Direção de Sandro Freitas, 1993 - Fotógrafo: Edimar Soares.